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Tirania infantil na contemporaneidade

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Diante das novas configurações familiares e o declínio da função paterna, o olhar lançado às crianças perdeu, de alguma forma, seu tradicional significado de limites e referências para o desenvolvimento dos filhos. A substância emocional capaz de fundar a estruturação psíquica na constituição infantil ficou enfraquecida diante de tantas e tão intensas mudanças sociais e familiares.

No trabalho clínico com crianças, sou procurada por pais em relação aos quais os próprios filhos agem, com muita freqüência, de forma impositiva. São crianças educadas para fazerem o que bem quiserem. Os limites passam longe delas. Por outro lado, os pais, desejando serem amados e queridos, não sabem de que forma devem se colocar diante de seus filhos.

A base dos comportamentos infantis são, de modo geral, reflexos da maneira como os pais respondem normalmente às demandas e aos caprichos dos filhos. Os pais tentam minimizar as frustrações dos filhos e poupá-los das dificuldades da vida o máximo que podem, pois pensam que, ao ceder à vontade da criança, terão para si aliados. Isso, contudo, é um grande engano, pois esse processo costuma funcionar de forma contrária.

Muitos são os motivos que fazem os pais agirem desta forma na sua relação com os filhos. Na maioria das vezes, estão preocupados com suas realizações pessoais e tentam suprir suas ausências agradando a qualquer custo os filhos. Ao agir assim, acabam se perdendo nas suas funções de maternagem e paternagem.

Uma estruturação adequada dessa complexa relação entre pais e filhos ocorrem não pelo simples fato daqueles não estarem presentes, mas sim quando não ocupam a responsabilidade que lhes cabe.

A presença física dos pais não necessariamente é o mais importante. Devemos pensar que na relação entre pais x filhos, a intensidade emocional de cada encontro é o que realmente se faz importante.

Percebemos que há pais extremamente presentes (fisicamente), porém, na percepção dos filhos, essa presença não se mostra intensa e verdadeira como se pensa.

É neste panorama social novo que aparece a “culpa dívida” oriunda do registro da família tradicional instaurada de alguma forma na psique humana, que traz na maioria das vezes um modelo familiar que não mais existe dessa forma hoje.

Com a sensação das supostas “ausências”, os pais entendem que dão causa a esse “vazio” e a angústia de aplacá-lo faz com os genitores tentem suprir todas as demandas que lhe são dirigidas. Assim, pensam que poderiam aliviar o sofrimento das crianças e, por conseqüência, também se sentiriam aliviados.

Muitos pensam que, ao presentear seus filhos com coisas materiais, preencherão o que falta. No entanto, até que visualizem outra possibilidade, repetirão ainda que inconscientemente esse manejo.

As crianças têm uma capacidade enorme de tatear os pontos fracos dos adultos, valendo-se de uma sensibilidade esta extremamente aguçada, sobretudo a partir do momento em que mapeiam a insegurança de seus responsáveis e, a partir de então, dominam aqueles.

Para ser pai e mãe buscamos recursos dentro de nós. Nesta  busca, esbarramos no pai e na mãe que tivemos. Essa referência será primordial para que possamos estruturar a nossa forma de executarmos nossa função. Esse ponto requer um tempo maior para desenvolvê-lo, hoje não é o tópico principal deste artigo, razão pela qual nos deteremos nele em outro momento. Mas, devido à sua importância, merece aqui essa consideração, pois o que trazemos herdado emocionalmente do pai e da mãe será fundamental para estruturar o que seremos.

Se os pais conseguem experimentar momentos amorosos com seus filhos, demonstrando preocupação com o cotidiano deles e sendo, principalmente, capazes de acolhê-los com amor e carinho, conseguirão ajudar os filhos a serem seguros e felizes com suas próprias histórias.

O mais bonito será a possibilidade de estabelecer fortes laços afetivos que se estenderão por toda a vida.

Priorizar momentos com os filhos sempre é a melhor escolha, pois serão momentos eternizados dentro de cada um!

Ivone Honório Quinalha – Psicóloga

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