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A difícil fase da adolescência

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Tenho presenciado diariamente a angústia de pais, cujos filhos vivenciam a fase do adolescer.

Em um piscar de olhos, os pais percebem que o tempo passou e que, a partir de então, estão diante de mocinhos e não mais crianças. Neste momento, seus filhos se apresentam cheios de enfrentamentos e indagações.

Os conflitos são inerentes nas relações humanas e, sobretudo, no desenvolvimento infantil, pois os filhos buscam construir sua identidade e para isso, têm que se “afastar emocionalmente” de seus pais.

A única maneira que encontram é a forma agressiva e “conflitiva” ao lidar com os referenciais paternos, até então, ocupavam quase todo o espaço da individualidade da criança. Este distanciar-se significa o desejo de ter uma proteção menor dos genitores, o que lhes dá a sensação de poder contar mais consigo mesmo.

Devemos concordar que, se fosse de forma amorosa e ainda vinculativa, o distanciamento dos pais seria muito mais difícil de acontecer, pois os laços não seriam tensionados. Conseguir ter um pouco mais de autonomia dá trabalho ao adolescente e é um dos principais desafios dessa fase.

Por isso, é normal que, neste momento, os filhos passem a ver seus genitores com olhos mais críticos e com menos admiração. Afinal de contas, o adolescente não é mais um menino, que sentia seus pais como super heróis infalíveis e invencíveis.

A partir desse distanciamento crítico entre filhos e pais, emerge um desconforto nestes, que passam a questionar: “Quem realmente é ele ou ela? Antes era tão doce e agora que está crescendo, ficou assim?”.

Os pais não reconhecem mais seus filhos e por sua vez, os jovens também se estranham, pois o corpo cresce em velocidade assustadora, as idéias são confusas, o humor é instável, dentre tantas outras questões e várias sensações novas, as quais são experimentadas nessa fase da vida.

Por ser tão enigmático para pais e filhos esse processo, fui inspirada a me aprofundar, neste tema. Nas palestras que ministro, percebo o quanto os jovens têm necessidade de se entender melhor, de se assustar menos com suas transformações e curtir mais as novas possibilidades abertas com o adolescer.

Normalmente, assustados e sem suportes adequados para lidar com as novidades, os adolescentes ficam introspectivos e silenciam. Eles acreditam que o mal-estar só acontece e só é culpa deles, pois têm dificuldades de expressar o que sentem, não conseguindo elaborar suas sensações.

Ao abrir um espaço de troca, por meio do qual podem falar e discutir sobre seus problemas; aliviam-se e sentem-se compreendidos.

As mudanças são imensas e incontroláveis nessa fase. São elas: físicas, emocionais, sociais e familiares. O desafio de ser adulto talvez condense, sem exageros, a maior quantidade de transformações, no menor período de tempo que enfrentamos na vida. Conciliar todas essas experiências dá muito trabalho.

Trata-se de um momento de escolhas, decisões e vulnerabilidades diante de tudo o que a vida pode oferecer e diante de tudo o que ela pode exigir.

Como alguém que ainda está querendo se descobrir, pode ser capaz de responder as demandas da vida a um só tempo e sem chance de errar?

Alguns apresentam mais facilidade de transitar nesta fase. Na maioria desses casos, são adolescentes que podem contar com um ambiente acolhedor e compreensivo.

Muitos pais também afetados pela recusa e pelas críticas dos filhos, acreditam que devam ser duros e respondem com mais agressividade. Desejando ter maior controle, os pais, na verdade se comportando desta forma, poderão distanciar ainda mais e minar suas relações com os filhos.

A intimidade entre pais e filhos deve ser construída durante toda a vida, para que, ao chegar nesta fase, o jovem possa ter um pai ou mãe verdadeiramente amigos, aos quais ele possa dizer o que sente e ser compreendido.

Há pais que, também assustados nesse momento, tentam se aproximar e saber mais de seus filhos. Mas às vezes parece ser tarde demais para aqueles que nunca priorizaram a relação.

Para os pais que nutriram a relação durante a infância dos filhos, cabe-lhes orientar e confiar no que ofereceu, até então.

É importante saber que, mesmo havendo um distanciamento físico e emocional dos pais, os filhos  levarão o que receberam dentro de si para onde forem.

O amor e o carinho são a melhor forma de registrar coisas boas dentro de cada um. Sempre podemos oferecer aos filhos boas e gostosas lembranças, apenas depende de nós!

Ivone Honório Quinalha – Abril/2014 –  Psicóloga e Psicanalista – Especialista em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientaie.

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